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Proposta de terceirização das atividades operacionais

Proposta de terceirização das atividades operacionais
September 30, 2005 09:13AM
Os candidatos Demétrio e Pedro Dias propõem a terceirização das atividades operacionais e que o INPE deve se concentrar nas atividades inovativas. Tal proposta, ao meu ver, é equivocada se considerarmos que, de acordo com Rosenberg (1993), o processo de inovação pode ser classificados em diferentes tipos de aprendizagem, sendo um deles o learning-by-using. Isto quer dizer que, o processo de inovação as vezes é alimentado pelo feedback dos usuários. Separar a atividade de inovação da operação implica no distanciamento entre produtores e usuários de tecnologias. O novo paradigma de política de C,T&I se baseia no modelo interativo de inovação em substituição ao modelo linear proposto por Vannevar Bush na década de 1940. Parece-me que os candidatos ainda estão orientados pelo velho paradigma.
Para quem tiver interesse em conhecer melhor o modelo interativo de inovação sugiro o clássico: Rosenberg, N. (1982) – Inside the Black box – Technology and economics – Cambridge University Press.

Prezado Guilherme,

Não sei se o Doutor Demétrio vai responder o seu comentário, ele está em “casa”, o Pedro acho que nem sabe do Fórum e se o grupo de coordenação o convidou.

Se eu entendi, a preocupação deles estava em não permitir a “concorrência predatória em produtos passíveis de geração na iniciativa privada”. As organizações públicas pela Constituição não podem fazer isto. Na realidade, não sei se seria uma terceirização, mas sim, um reforço na estratégia de multiplicação ou transferência de competências para a Indústria. ambém acho isto importante!

Algumas “terceirizações de operação” têm ocorrido, do CRC e o Supercomputador, mas na minha opinião elas não são propriamente terceirizações, por estarem principalmente suprindo a necessidade de captação de recursos humanos. Ou seja, estas terceirizações não estão contribuindo efetivamente com novas competências industriais. Além do custo ser alto os dois contratos atingem algo como 8 milhões de reais/ano, elas deixam o Inpe vulnerável nestas competências essenciais. A solução que eu defendo para isto está no contrato de gestão com o Núcleo de Inovação.

Estrategicamente também não nos interessam concentrar no Inpe nada que não possa ser multiplicado à Indústria. Quanto ao “modelo interativo de inovação”, ele pode ser atendido através da adequação das transações entre o “Inpe e a Indústria”. A nossa estratégia deve ser sempre a de maximizar o “impacto” social, não importa como a cadeia de geração do produto seja gerada. Por exemplo, ao gerarmos uma patente o nosso objetivo não deverá ser maximizar os recursos em royalties ao Inpe, mas acelerar a sua transferência de forma a obter o máximo retorno industrial no país.

Isto não significa que não possamos desenvolver atividades operacionais no CPTEC, pelo contrário, ele possui uma enorme potencialidade de geração de produtos para serem disponibilizados publicamente. Outros exemplos poderiam ser listados com esta característica, entre eles, o PRODES e inclusive o CBERS. Os recursos para a sustentar e perenizar estas atividades, no entanto, eles podem vir de diferentes origens: orçamento Tesouro, origem orçamentária, fundos, ou privados. Como você vê a captação de recursos exige uma enorme flexibilidade, e esta uma das principais funções do Núcleo de Inovação.

Não acho este tema “operação no Inpe ou não” determinante sobre a decisão do “CPTEC ficar ou não no Inpe”. No meu entender, a questão decisiva está no grau de alinhamento dos objetivos e estratégias do CPTEC com a Missão do Inpe. Isto vale para todas as Unidades do Inpe. O CPTEC, OBT e a CEA, possuem uma componente importante associado as atividades espaciais que é a modelagem dos fenômenos terrestres, naturalmente, estendidos à Ionosfera, Sistema Solar e Universo.

Eu aqui no planejamento nestes anos sou testemunha do quanto o Inpe e o CPTEC têm sido prejudicados com esta discussão da separação, às vezes, a partir de Brasília, às vezes, na Imprensa. Esta discussão é tecnicamente incorreta, e inaceitável para qualquer organização pública, fora do contexto de um processo de planejamento estratégico formal e participativo.

Finalmente, claro que isto não significa que não devamos discutir, no escopo de um processo de planejamento estratégico formal e participativo, novos objetivos e estratégias para a OBT, CPTEC e CEA para ainda uma maior aderência à missão do Inpe.

Abraços,

Décio
Re: Proposta de terceirização das atividades operacionais
October 02, 2005 05:05PM
Estimados Guilherme e Decio

A concepção de que é possível separar as atividades operacionais do INPE das atividades de inovação parte de tres premissas que se revelam falsas ao analisarmos em maior detalhe:

1. É possivel separar as atividades operacionais das atividades inovadoras no INPE.

2. O INPE faz concorrência predatória com a iniciativa privada.

3. O INPE estaria melhor sem a responsabilidade de realizar atividades operacionais.

Vamos analisar cada uma destas premissas.
No primeiro caso, considero que é impossivel separar as atividades operacionais das atividades inovadoras. Tome-se o caso do CPTEC. Um modelo numerico de previsao de tempo é uma entidade viva. Todo centro operacional de previsão de tempo de sucesso no mundo (Centro Europeu, UK Met Office, Meteo-France, Centro Americano) está constantemente aprimorando seu modelo. Isto implica em pequenas mudanças quase diárias e grandes mudanças periódicas. Assim, o que chamamos de "operacional" é na realidade um sistema em constante mudança e inovação.

O mesmo raciocínio vale para a producao de imagens e mapas da OBT e para a atuação do LIT. Sao atividades em constante aprimoramento, que apenas uma instituição com capacidade de inovação constante pode manter com qualidade.

Vamos à segunda premissa ("concorrência predatória com a indústria privada"). De que indústria privada estamos falando? É preciso distinguir entre empresas que oferecem serviços semelhantes ao INPE (e.g., distribuidores de imagens de satélite) e empresas usuárias dos produtos do INPE (e.g., empresas de agronegócios que usam imagens e previsões de tempo para ganhar produtividade). É claro que as empresas no segundo caso formam um segmento muito maior e muito mais importante economicamente que o primeiro. Assim, será que ao beneficiar o primeiro grupo nao estaremos prejudicando um segmento muito maior da economia brasileira? De que maneira o Brasil ganharia mais?

Tomemos um exemplo concreto: a distribuicao gratuita de imagens CBERS, que alcança patamares de 100.000 imagens/ano. As imagens CBERS hoje tem usuários de norte a sul do Brasil. Boa parte destes usuarios demandam serviços adicionais de interpretação e integração de imagens com dados de outras fontes. Estes serviços estão criando um mercado de prestadores de serviço que oferecem um valor adicionado às imagens CBERS.

Consideremos agora o cenário reverso. O INPE credenciaria algumas empresas privadas para distribuir imagens CBERS, cobrando por isto. Isto aumentaria muito o custo do serviço total para o usuário final. Ele teria de pagar pela imagem e muitos dos serviços associados seriam concentrados nas empresas credenciadas pelo INPE, que cobrarim mais caro que no caso de um mercado aberto. Neste modelo, o INPE beneficiaria poucos em detrimento de muitos.

Ou seja, se o INPE terceirizar a distribuicao de seus produtos e serviços, ele irá beneficiar **poucas** empresas privadas, em lugar de ajudar a criar um mercado para **muitas** empresas privadas.

Finalmente, consideremos o terceiro argumento ("O INPE estaria melhor sem atividades operacionais"). Os proponentes deste argumento nao conhecem a Segunda Lei de Simonsen ("No orçamento brasileiro, não há vasos comunicantes"). Isto é, a retirada das atividades operacionais do INPE redundaria numa substancial perda de prestígio e orçamento. Trata-se justamente da face visível do INPE. O fato de todo dia aparecer o logo do INPE no Jornal Nacional é fundamental. Ao abdicar desta e de outras atividades operacionais, estariamos decretando a derrocada da instituição.

Em resumo, as tres premissas nos quais se apoiam os defensores da redução das atividades operacionais do INPE são falsas e nao resistem a uma análise séria.

Abracos
Gilberto
""Comentário do Pedro Dias""

Décio:

Obrigado pela informação. Posso entrar no site do forum mas não enviar
mensagens, estando fora do INPE. Seguem aqui meus comentários que podem
ser circulados ou enviados diretamente ao Guilherme Pereira.

Seguem meus comentários ao seu email.

****************
Exatamente: minha preocupação é com a questão da concorrência predatória
em produtos passíveis de geração na iniciativa privada. Este é um tema
que me aflige há pelo menos 15 anos quando me deparei com o conflito
aqui na USP. Creio que podemos usar de forma mais produtiva os recursos
humanos nas instituições públicas através da focalização em atividades
inovadoras.

Concordo com o Decio na questão da Agencia de Inovação. Tenho monitorado
a evolução da regulamentação da Lei de Inovação. É importante que a lei
seja regulamentada para que possamos usar com eficiência os mecanismos
propostos. O contrato de gestão deve trazer mais estabilidade ao processo.

Venho acompanhando a questão da manutenção da supercomputação no CPTEC
há vários anos e em alguns momentos correu-se o risco de haver uma
interrupção total na operação da previsão de tempo e clima. Me preocupa
muito o exagero na dependência da contratação externa. Algumas
atividades críticas da operação certamente deveriam ser atribuições dos
funcionários (públicos) do INPE.

Reitero minha a convicção do sinergismo entre
operação/pesquisa/ensino/serviços. A prática operacional nos traz a
experiência do dia a dia e permite testar hipóteses de forma
extremamente eficiente. Creio que no meu plano este tema está bastante
claro.

Divirta-se,

Pedro
Re: Proposta de terceirização das atividades operacionais
October 03, 2005 02:27PM
Colegas

Para balizar estas discussões, gostaria de lembrar a experiência que tivemos durante a crise energética, onde as previsões do CPTEC ajudaram ao grupo de trabalho inter-ministerial da crise e as empresas do setor de energia.

esse trabalho teve muitos desdobramentos, mas gostaria de lembrar de dois em particular:
1 - deu impulso à compra do supercomputador SX6
2 - desenvolveu fortes vínculos do cptec com o setor de energia, de economia privada e mixta, que até hoje são muito ativos (os produtos do cptec são usados, por exemplo, pelo ONS).

Mais de 90% da matriz energética brasileira é de origem hidrelétrica. Ao meu ver, as oscilações do clima (com potencial impacto sobre a geração de energia, entre outras coisas) não deveriam ser tratadas como uma questão econômica: elas são uma questão estratégica para o país.

abraços

javier
Javier, Gilberto e Colegas,

Não é possível que o Inpe se “livre de todas atividades operacionais”.

Existem atividades operacionais que podem ou precisam ser incluídas em um contexto de “inovação pública”, ou seja, se viabilizar e ganhar sustentabilidade no ambiente público aos fins públicos. Por exemplo, os sistemas de monitoramento global do clima, de monitoramento de desastres naturais, e em um horizonte visível, os satélites como o CBERS.

Eu acho que a discussão “Inpe-CPTEC” tem sido levada na direção errada (“Atuação operacional ou não-operacional”), quando deveria estar concentrada no “alinhamento com a missão organizacional”. Veja o meu plano na seção “missão integrada”: [www.inpe.br] . (Veja o segmento S1 – Ciências e aplicações).

Preocupa-me na intervenção do Gilberto, quando ele defende a atuação do Inpe em detrimento da indústria de distribuição de imagens. “É preciso distinguir entre empresas que oferecem serviços semelhantes ao INPE (e.g., distribuidores de imagens de satélite) . . . ”. Definitivamente o Inpe, na sua missão tem muito mais a fazer, do que tentar competir com a Indústria.

O Inpe “precisa fazer exclusivamente aquilo que somente ele pode fazer”, na sua missão, e com excelência. Não basta fazer “excelentemente” o “trabalho errado”!

Formar operadores, às vezes, multiplicadores de operadores deve ser uma primeira estratégia de inovação industrial.

Uma segunda estratégia é o de desenvolvimento de fornecedores industrias (de equipamentos, software e de serviços) às suas necessidades. Não somente desenvolver os fornecedores de equipamentos de satélites, mas de softwares para o processamento dos modelos climáticos, dos softwares de processamento de imagem, ou ainda, de serviços como os do levantamento das informações de desmatamento da Amazônia.

Abraços,

Décio
Re: Proposta de terceirização das atividades operacionais
October 11, 2005 05:49PM
Estimados

Gostaria de esclarecer minha posicao anterior.

Quando falei em empresas que oferecem serviços semelhantes ao INPE,
vale destacar o que esta acontecendo:

* O INPE distribui imagens dos satelites do programa espacial
brasileiro (CBERS) e de satelites nao-comerciais (LANDSAT,
MODIS, NOAA).

* Ha empresas que comercializam imagens de satelites comerciais,
como IKONOS e QUICKBIRD.

Evidentemente, o INPE nao deve envolver-se com a comercializacao
de imagens de satelites de empresas privadas. Mas também
nao ha qualquer necessidade do INPE distribuir suas imagens
(que tem carater nao-comercial) através de representantes.

O INPE dispoe hoje de uma estrutura muito eficiente de
distribuicao de imagens via Internet, que é modelo no mundo inteiro.
Nao precisamos de intermediários. Lembremo-nos que, no
mundo digitial, o valor vem do uso.

Da mesma forma, as previsões de tempo do INPE devem estar
na Internet, disponiveis da forma mais ampla possivel.
Em casos de clientes de grande impacto, como no caso
das TVs, o ganho de exposicao e de visibilidade institucional
justifica o esforço adicional (que é muito pequeno) de
gerar previsões específicas.

Em resumo, o que defendo é que o INPE valorize ao máximo
seus produtos e que os distribua da forma mais ampla
possível, fazendo chegar à sociedade os beneficios do
programa espacial. Sou contrario ao estabelecimento de
intermediários entre o INPE e a sociedade. Isto seria
um retrocesso institucional sem precedentes.

Gostaria de recomendar a leitura de meu artigo
"O valor das coisas que nao tem preço",
publicado na revista InfoGeo e disponivel em
<www.dpi.inpe.br/gilberto/infogeo/infogeo26.pdf>.

Abracos
Gilberto
“Em resumo, o que defendo é que o INPE valorize ao máximo
seus produtos e que os distribua da forma mais ampla
possível, fazendo chegar à sociedade os benefícios do
programa espacial. Sou contrario ao estabelecimento de
intermediários entre o INPE e a sociedade. Isto seria
um retrocesso institucional sem precedentes”.(Gilberto, na Intervenção anterior)

Gilberto,

É preciso considerar na discussão das relações do Inpe a complexidade dos processos sócio-econômicos. Vejamos!

Quem discordaria da primeira parte do seu “resumo”? “Valorizar ao máximo e dar amplitude ao acesso”! E daí? Como devemos maximizar o impacto? Ou mais difícil: como dar sustentabilidade ao novo produto? Lembremos o SCD (Sistema de Coleta de Dados), construiu-se uma demanda forçada para o seu serviço, mas no arranjo atual temos pouca perspectiva de sustentabilidade deste Sistema.

Difícil também estabelecer “intermediários entre o Inpe e a Sociedade”, envolveria concorrências complicadas, e pior, seria um engessamento do processo de inovação! Isto não significa que não devamos implementar estratégias para facilitar o desenvolvimento de multiplicadores (ou difusores) da competência do Inpe.

Indo um pouco além desta questão da multiplicação, acho que o Inpe precisa se concentrar em fazer aquilo que “somente ele pode fazer”. O Inpe precisa fortalecer a sua estratégia de “transação de intangíveis” no processo de inovação.

Para você entender a expressão “transação de intangíveis” veja os Slides 14 e 15 da minha palestra em: [www.inpe.br] .
A figura S14 representa como vejo a Inovação: misturo SCHUMPETER e COASE. Desenvolver a Inovação é fazer crescer simultaneamente os quatro triângulos da figura S14.

Tudo bem se os quatro “fatores da inovação” crescerem no meio público, no privado, ou no “híbrido” (público e privado). (Isto explica a expressão que eu utilizei em uma intervenção anterior, “inovação pública”.)

Admito que o projeto CBERS possa ser considerado no contexto de uma “inovação pública”. O desafio é desenvolver os quatro fatores de inovação, e garantir a sustentabilidade de longo prazo do projeto. Vejo como desafio principal, a construção de uma carteira de captação de recursos que acrescente alternativas ao “orçamento Tesouro” direto.

Abraços,

Décio
Re: Proposta de terceirização das atividades operacionais
October 17, 2005 10:23PM
Ola Decio:

O sonho de captar recursos proprios que complementem significativamente o que recebemos do Tesouro representa um grande perigo para o INPE. Trata-se de uma armadilha. Somos um instituto financiado pelo povo brasileiro. So conseguiremos obter recursos significativos se distorcermos nossa relacao com a sociedade, e passarmos a cobrar por servicos que hoje oferecemos de graça. Isto penalizará a sociedade e criará uma grande distorção interna. Nossa capacidade de fazer planejamento estratégico será severamente reduzida, pois teremos de fazer ações de curto prazo.

Veja o que acontece com o IPT. O governo do estado de SP quer que o IPT obtenha pelo menos 50% de seu orçamento com recursos captados com terceiros. O resultado é que a instituicao está realizando projetos que nao contribuem para seu futuro, apenas para se manter viva. Esta nao é a missao de uma instituicao de P&D.

O CPqD está na mesma situacao. Muitos dos projetos deles hoje tem baixo aporte tecnológico proprio. Trata-se simplesmente de agregar um pouco de valor a soluções vindas de fora.

Nao quero que o INPE se veja na situacao que vivem o IPT e o CPqD. Isto requer muita coragem de nossa parte para rejeitar este sonho de captar recursos, que mais será um pesadelo.

Abracos
Gilberto
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